CURAR OU ESQUECER?

      Muitas pessoas tendem a esquecer algumas feridas da vida. É que as vezes são tão amargas que a consciência não suporta detê-las e, para continuar vivendo com certa normalidade, manda-se tudo para o subconsciente. Com isso muitas situações indesejáveis se esquecem. Às vezes, talvez ao rever alguém, aparece como que de relance uma lembrança. Aí achamos que não se devam complicar as coisas: e imediatamente ignoramos, esquecemos a tal lembrança.

      Mas esse esquecimento não quer dizer que as feridas fiquem inofensivas: nosso caráter pode ir-se azedando, nossa generosidade, liberdade, felicidade podem ir diminuindo, simplesmente porque fomos estocando chagas em nosso interior, falsos esquecimentos que se transformam num grande espinho e nos tornam susceptíveis, medrosos, briguentos, ciumentos, invejosos, ansiosos.

      As experiências danosas que não tenhamos resolvido satisfatoriamente, nem enfrentado ou sanado em tempo oportuno, permanecem escondidas, ferindo-nos por dentro. É isso o que às vezes produz aquelas sensações desagradáveis e difusas que surgem dentro de nós, sem que saibamos porque se produzam. E é lá do fundo que as feridas provocam reações negativas, tristezas, apegos, invejas. Também por isso posso chegar aferir o próximo como fui ferido, pois não suporto que não sofram o que eu sofri, ou que lhes importem menos as coisas.

      Há ninharias sofridas na infância que agora nos parecem infantis; não obstante, quando ocasionalmente as lembramos, continuam a nos pungir, porque a criança que as sofreu ainda não se curou: continua ferida dentro de mim. Aquele mesmo adolescente que um dia se sentiu desamparado, desiludido, não respeitado, pode ainda estar dentro de mim pedindo socorro, perguntando porque, ou chorando com uma queixa amordaçada.

      Por pudor, quem sabe, não choramos o suficiente quando morreu um ente querido, ou quando alguém falhou e nos desiludiu: esse pranto que ficou aí represado ainda espera por libertação; aquele grito de angústia que não soltei no tempo devido ainda espera que lhe permita sair. Não é conveniente conter-me tanto por vergonha: seria como acumular detritos em meu coração.

      Não se trata, porém, de estar-se aí a cada momento a relembrar as dores passadas. Se dermos atenção a cada angústia ou tristeza que nos apareçam no coração, viraremos idiotas, obcecados, hipersensíveis.

      Não se trata de desviar interiormente velhas feridas; trata-se simplesmente de identificar coisas velhas que forcejam, por dentro, como se lutassem para sair à luz. Jamais, porém, se trate disso sozinhos, mas com outro: com Cristo. É nisso que se resume a Cura Interior.

      Na Cura Interior cuidamos de reviver os fatos dolorosos sob o olhar amoroso de Jesus. Depois, sim, esquecê-los, confiando na obra sanativa o Senhor. Trata-se de por tudo sob o olhar de Cristo, de não permitir que algum trecho de nossa vida escape ao olhar e à luz do Senhor.

      Pode tratar-se outrossim de coisas que nos causem vergonha, ou nos façam sentir culpados. O segredo para alcançar a paz não está no fato de as continuar escondendo, mas no de expô-las à luz, perante o olhar do Senhor. O olhar de Jesus não faz mal, não quer fazer-me sofrer nem aumentar a ferida. Seu olhar é unicamente um olhar que ilumina e cura. E um sinal, justamente, de que já nos curamos de uma ferida é que podemos apresentar serenamente esse mesmo fato diante do olhar de Deus. Ele conhece o fato, não posso ocultá-lo. Mas é preciso que lhe apresente, dê permissão para entrar aí e curar-me.

      Tentar esquecer um problema é mandá-lo para o subconsciente ou o inconsciente. E isto com o tempo só piora a situação. A Cura Interior nos ensina a deixar Deus curar nosso interior e não simplesmente esquecer.

Seja Feliz!

Fonte: Padre Léo - Comunidade Bethânia - www.bethania.com.br

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